Brasília - Mãos ágeis. Tato, audição e olfato aguçados. Com a ajuda de projetos de inclusão socioeconômica,
deficientes visuais de Brasília adquirem habilidades para compensar a perda da visão e ganham a
oportunidade de emprego. A cidade é a primeira do país a desenvolver curso de gastronomia para
cegos. E desenvolve outras atividades para oferecer um novo mundo a quem tem limites para
enxergar.
A organização não-governamental Espaço às Claras está empenhada em preparar deficientes visuais
para o mercado de trabalho. Em parceria com o chef de cozinha Dudu Camargo, a Ong abriu a
primeira turma de gastronomia para cegos do Brasil. Sem data para concluir os estudos, quatro
cegos tentam adaptar a rotina em uma cozinha industrial a suas necessidades.
O aprendizado começou com pizza e deve terminar com pratos elaborados e garantia de emprego na
rede de restaurantes do chefe-professor. ''Nunca trabalhei porque não fui treinada. Agora, no
mínimo, serei pizzaiola'', garante Érika Cerqueira, 21 anos, cega desde os três por causa de
uma doença genética. ''Isso é uma oportunidade única.''
Os alunos adultos do Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais (CEEDV), fundado em 1973,
também tiveram uma oportunidade única neste ano.
Conseguiram fazer a primeira exposição de esculturas do CEEDV. Inspiradas no sucesso do projeto,
as crianças montaram um zoológico, que será exposto no próximo dia 28, durante a Festa do
Folclore.
Emprego fixo
As obras de arte são feitas nas aulas de escultura, um dos novos cursos da instituição.
Hoje 170 cegos e pessoas com dificuldade para enxergar aprendem braile, matemática, informática
e são reabilitadas no CEEDV. ''Ensinamos nossos alunos a levar uma vida independente'', resume
a professora de artes, Mariangela Hermano de Brito.
Na busca de uma nova vida, Nilson do Carmo Nascimento, 38 anos, já descobriu seu lugar no mundo.
Um convênio da Novacap garantiu-lhe um emprego fixo.
Trabalha há 11 anos no setor de coleta e beneficiamento de sementes. Cego desde o primeiro
ano de vida, ele é capaz de reconhecer instantaneamente a maioria das sementes que toca.
''Meu trabalho é separar as (sementes) boas das ruins. As ruins têm rachaduras, furos,
são feias e vão para o lixo. As perfeitas são lisinhas, sem furos ou ranhuras'', ensina.
Alisando as sementes uma a uma, Nilson identifica pelo tato todos os defeitos imperceptíveis
aos olhos. ''Levo uma vida normal'', diz.