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(Segunda-Feira 15 Setembro de 2003)
ONGs atacam acordo sobre remédios
Folha de São Paulo
Um grupo de dez jovens, moças e rapazes, invadiu o Centro de Convenções
gritando "medicamentos para todas as nações"
Da Redação
O único acordo até agora obtido nas negociações da OMC para a Conferência
Ministerial de Cancún entrou ontem na alça de mira das ONGs (organizações
não-governamentais).
Um grupo de dez jovens, moças e rapazes, invadiu o Centro de Convenções
gritando "medications for all nations" (cântico que rima em inglês e, em
português, quer dizer "medicamentos para todas as nações"), em alusão ao
acordo que, segundo os manifestantes, emperra a importação de remédios
genéricos pelos países pobres que enfrentem crises de saúde pública.
Nos preparativos para o encontro de Cancún, o Brasil aceitou o acordo que
estabelece condições para que países pobres, incapazes de produzir
genéricos, importem esse tipo de medicamento (mais barato do que remédios
patenteados). Reduziu-se, com o acordo, o alcance do entendimento alcançado
na conferência ministerial anterior, em 2001, a respeito do assunto.
Os manifestantes usavam fitas adesivas vermelhas no rosto, exatamente para
simbolizar a principal crítica ao acordo: ele estabelece procedimentos
burocráticos que dificultarão ou impossibilitarão o acesso de países pobres
aos genéricos (fita adesiva vermelha é, em inglês, "red tape", expressão que
também designa entraves burocráticos).
Os manifestantes pertenciam ao Projeto Acesso Global à Saúde, cuja
porta-voz, Sharonann Lynch, diz que "o acordo prioriza o interesse pelo
lucro dos grandes laboratórios e compromete o acesso a medicamentos".
Menos radical, a ONG "Médicos sem Fronteiras" também atacou o acordo ontem,
com argumento parecido: "Suas complexas regras podem, na prática, atrapalhar
o acesso a medicamentos", diz Ellen Hoen, da Campanha para Acesso a
Medicamentos Essenciais.
A maior inquietação da ONG não é com a OMC, mas com a Alca (Área de Livre
Comércio das Américas), que terá sua própria reunião ministerial em
novembro, em Miami.
No âmbito da Alca e no capítulo relativo aos direitos de propriedade
intelectual, "os Estados Unidos pressionam para aumentar a proteção da
propriedade intelectual sobre produtos farmacêuticos que estão em mãos da
indústria farmacêutica inovadora, assim como para reduzir o direito dos
países da zona de tomar as medidas necessárias para proteger a saúde
pública", diz documento divulgado pela ONG.
A entidade diz que os EUA, na prática, querem impor, na Alca, critérios que
vão além do que estabelecem acordos da OMC que já são questionados pelas
ONGs do setor de saúde.
A recomendação da ONG é para que os países pobres testem na prática o novo
acordo sobre acesso a medicamentos, para ver até que ponto ele de fato
atrapalha.
A ONG tem casos de sucesso a contar para justificar a importação de
genéricos. Na República de Camarões, por exemplo, a central nacional de
compras está pagando US$ 277 por pessoa por ano para o tratamento completo
de primeira linha em pacientes soropositivos, "um dos preços mais baixos
disponíveis no mercado internacional".
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