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(Quinta-Feira 8 Janeiro de 2004)
Uma lição para o futuro
ISTOÉ
Projetos financiados por empresas privadas ajudam a
amenizar as deficiências crônicas do ensino público
Eduardo Marini e Luiza Villaméa
A educação brasileira agoniza. Quem atesta o quadro é justamente o
encarregado de administrar o ensino, ou seja, o Ministério da Educação
(MEC). As dimensões dessa tragédia acabam de ser delineadas em pesquisa
divulgada pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica, o Saeb,
centro vinculado ao MEC. De acordo com o levantamento, o espantoso
porcentual de 95% dos alunos da quarta série do ensino fundamental
(entre a primeira e a oitava série) apresenta desempenho abaixo do
mínimo admissível. Da quinta à oitava série, acreditam os educadores do
MEC, a situação é semelhante. Em meio ao caos, há pelo menos uma boa
notícia. Cada vez mais, empresas privadas se empenham em ajudar o
governo na batalha contra essa grave defasagem construída nas últimas
décadas. Em geral, as empresas se ancoram em fundações próprias ou em
organizações não-governamentais. Projetos educacionais como os dos
grupos Bradesco, Johnson & Johnson, Nike, Odebrecht, Orsa, Pão de
Açúcar, Porto Seguro e Telemar iluminam caminhos. Eles aprenderam uma
lição digna de nota dez: não esperar de braços cruzados o Estado tentar,
sozinho, dar vida ao que sobrou dos escombros. As parcerias começam a se
espalhar pelo País. E os especialistas aprovam. "Vejo com entusiasmo a
participação de empresas nessa tarefa", revela o ministro da Educação,
Cristovam Buarque. "Ainda é pouco, mas esses projetos podem incentivar
uma participação cada vez maior", completa. "A disposição dos
empresários de relacionar a imagem de seus grupos a projetos
educacionais de qualidade aumenta a cada dia", atesta a consultora
Patrícia Rousseaux, diretora da empresa KlickEducação, especializada no
desenvolvimento de projetos educacionais. "Esses empreendedores percebem
que as crianças e as famílias envolvidas não são os únicos beneficiados.
O ganho institucional também é muito significativo", explica.
Pioneirismo - Esses apoios nunca foram tão necessários. Grande parte dos
alunos das escolas públicas simplesmente não consegue entender o que lê
ou passar para o papel uma frase elementar. Submetê-los a um ditado
breve - e vê-los enfileirando letras sem o menor sentido - é cena de
cortar o coração e, infelizmente, comum. Por isso, investimentos como o
da Fundação Bradesco merecem elogio. Uma das pioneiras nesse campo,
inaugurou a primeira unidade de ensino há quase 50 anos, nas
proximidades de sua sede, em Osasco (SP). Hoje, mantém escolas próprias
em todos os Estados e no Distrito Federal. As 39 unidades de primeira
linha atendem mais de 105 mil alunos. Como o critério para oferecer o
serviço é a carência da região, a escola da fundação no Distrito Federal
foi instalada em Ceilândia, a mais populosa das cidades-satélites de
Brasília. Talyson Correa, sete anos, aluno da primeira série, começa a
exibir em casa os frutos da boa educação recebida. "Ele escreve todas as
cartas que mandamos para o Nordeste", conta orgulhosa a mãe, Maria do
Socorro, 35 anos, que há quatro meses frequenta o curso de alfabetização para adultos
no mesmo local. "Mal sabia meu nome, mas agora desandei a escrever", diz. "Isso
aqui é o máximo." Os resultados obtidos pelo grupo Pão
de Açúcar não são menos animadores. A empresa oferece, desde 1998, uma
série de programas educacionais a crianças e adolescentes cuja renda
familiar não ultrapasse R$ 700. Entre os 35 mil beneficiados estão
Rayanne Braga Magalhães, 14 anos, e José Eduardo da Silva Filho, um ano
mais velho. Eles frequentam cursos da Casa Terra do Sol, em Fortaleza,
um dos sete espaços implantados pelo grupo no País. De olho numa vaga no
mercado de trabalho, José Eduardo participa do programa futuro@eu,
voltado para a preparação profissional. Rayanne está há mais de três
meses no programa Nossa Língua Digital, que usa a internet para discutir
temas do cotidiano e aprimorar o domínio do português. "É impressionante
como a gente melhora a linguagem", diz Rayanne. "Trocamos mensagens com
colegas que nunca vimos e moram longe, até em São Paulo." Uma das metas
do programa de um semestre é a produção de uma revista eletrônica a
partir dos textos e pesquisas feitos pelos garotos. No caso de Rayanne,
houve até mudança em sua relação com o pai, que trabalha com sucata.
"Por causa da internet, comecei a dar mais importância à reciclagem",
confidencia.
Energia solar - O poder da rede de computadores também pode ser medido
por uma experiência desenvolvida em Almécegas, comunidade sem energia
elétrica a 50 quilômetros de Fortaleza. Na esteira de uma parceria entre
a Telemar e a escola local, os 176 estudantes locais entram na internet
através de um centro digital movido a energia solar. Por isso, mesmo sem
acesso a um aparelho de telefone, Daiane Alves da Costa, 11 anos, aluna
da quarta série, trocou e-mails com ISTOÉ para contar a revolução feita
pela internet em sua vida. "Antes conhecia apenas os livros", escreveu a
garota. Filha de pescador, Daiane tem nove irmãos e remotas chances de
viajar. Com a internet, garante, seus "conhecimentos do mundo"
aumentaram muito. Não a ponto de se desligar de um desejo acalentado
desde pequena. "Sonho em ser futuramente uma cantora", registrou a
garota, com pompa, na mensagem. Criado pela Escola do Futuro, da
Universidade de São Paulo, o projeto desenvolvido pela Telemar em
Almécegas está espalhado por 16 Estados. Esse mutirão a favor do saber
vem gerando grupos especializados. A Fundação Orsa, por exemplo,
concentra suas forças na pré-escola. Além de editar uma cartilha de
apoio na implantação de sistemas municipais de educação infantil, ela
banca um concurso anual para premiar os melhores projetos de educadores
municipais no País. Não satisfeita, administra desde 2001 toda a
educação infantil em Caraguatatuba, município de 80 mil habitantes do
litoral norte paulista. Pelo acordo, a Orsa recebe da prefeitura o
espaço físico e R$ 107,46 mensais por cada criança matriculada. Em
troca, contrata, treina e recicla professores e funcionários das 11
escolas infantis da cidade. ISTOÉ visitou uma delas, em Olaria, um dos
bairros mais carentes da cidade. Com instalações limpas, atividades bem
planejadas, integração dos pais e um sério programa de alimentação, a
escola não deixa nada a dever a uma boa creche particular. Em 2000, o
sistema pré-escolar da cidade atendia 231 crianças. Hoje, abriga quase
três mil. "Esse projeto conquistou a população. É um dos nossos maiores
orgulhos", diz o prefeito Antonio Carlos da Silva (PSDB). "Gastamos
cerca de R$ 4 milhões neste projeto. Temos condições de levar esse
trabalho a mil municípios nos próximos anos", diz Sergio Amoroso,
criador da fundação e acionista principal das empresas de papel e
celulose que sustentam a instituição com 1% do faturamento bruto. No ano
passado, foram R$ 10,4 milhões dedicados à fundação. O ensino
pré-escolar atrai também as atenções da seguradora Porto Seguro. Através
do projeto Crescer Sempre, a empresa atende 610 crianças de quatro a
seis anos em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, um dos maiores e
mais carentes bairros da cidade. "Trabalhamos ainda com escolas
públicas, em suas salas de leitura", diz a coordenadora Terezinha
Paladino. O sucesso é tamanho que crianças e adolescentes estão se
tornando contadores de história. Além de participar das atividades das
salas de leitura nas escolas, eles fazem um curso específico na sede do
Crescer Sempre antes de alegrar, com suas apresentações, a vida de
outras crianças da região.
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