APRENDIZES CONQUISTAM
EMPREGO, MAS IMPASSE
IMPEDE AUMENTO DE
OPORTUNIDADES
"Eu quero ser o melhor advogado
do Brasil", diz o adolescente
Fabiano Silva, trabalhador
aprendiz da Associação
Comercial de São Paulo há um
mês. O entusiasmo desde a primeira
entrevista lhe garantiu
uma vaga no departamento jurídico
da ACSP.
Ele conta que seu primeiro
emprego foi como engraxate,
nas ruas do centro de São Paulo,
aos 10 anos de idade. Hoje,
aos 14, a rua para ele é apenas
lugar de passagem de casa para
o trabalho e do trabalho para a
escola. Fabiano tem carteira
assinada, estuda e ainda conta
com o estímulo da empresa para
se aprimorar.
Os jovens já podem ter acesso
ao trabalho. A lei federal
10.097 autoriza adolescentes
de 14 a 18 anos (incompletos) a
trabalhar como aprendizes. O
adolescente deve ter tanto a
formação prática como teórica,
adequada à função.
O Movimento Degrau, iniciativa
conjunta da Federação
das Associações Comerciais do
Estado de São Paulo, da Associação
Comercial e da Rede
Brasileira de Entidades Assistenciais
e Filantrópicas, criou o
Programa Convivência e
Aprendizado no Trabalho.
"Além de orientar as médias
e grandes empresas, que têm a
obrigação de contratar aprendizes,
o foco principal é conscientizar
as pequenas e micro
sobre a importância de gerar
oportunidade aos adolescentes",
diz Marisa Negri, coordenadora
do Degrau.
Perspectiva - A jovem Elaine
Ferreira, de 16 anos, começou
a trabalhar há 6 meses.
Depois que conseguiu o emprego,
ela passou a fazer planos
para o futuro. "Quando
acaba meu horário de trabalho,
às vezes vou à biblioteca
ler para saber mais sobre as
profissões".
Robson Bernardo, colega de
Fabiano e Elaine na ACSP,
também vê aspectos positivos
nessa nova etapa. "Quando eu
não estava na escola, estava em
casa vendo TV e só saía para jogar
bola. Hoje, sou muito mais
responsável. Na TV, gosto de
ver o noticiário porque agora
consigo compreender mais".
A maioria desses adolescentes
saem da periferia buscando
uma oportunidade. O trabalho
é uma chance de encontrar
um meio digno de sobrevivência.
"Eu sempre digo que eles
podem jogar bola e ficar à vontade
com os amigos. Mas aqui,
eles estão formando a identidade
profissional. É uma oportunidade
para esse jovem ver
que pode se desenvolver e crescer
dentro de uma empresa",
diz Helena C. de Aguiar, psicóloga
da Escola de Ensino Social
Contratempo - A lei 10.097
determina que a entidade sem
fins lucrativos responsável pela
formação técnico-profissional
do aprendiz tem de ser registrada
pelo Conselho Municipal
dos Direitos da Criança e
do Adolescente (CMDCA).
Em junho de 2003, o CMDCA
publicou a Resolução 68,
referente às novas exigências
para os projetos. Desde então,
um impasse nas negociações
entre representantes do governo
e da sociedade civil vem
prejudicando aqueles que querem
integrar os jovens no mercado
de trabalho.
Integrantes da sociedade civil
entraram com um pedido
de liminar na Justiça alegando
"abuso de poder por parte dos
representantes da Prefeitura,
por tomarem decisões sem o
aval dos membros da sociedade
civil, desde a publicação da
Resolução", conta o conselheiro
Marcelo Nastari.
Teresinha Sarteschi, representante
da Prefeitura e presidente
do CMDCA, não quis
entrar em detalhes e disse que
"as reuniões vêm acontecendo
normalmente a cada 15 dias,
com oito representantes do
governo e três da sociedade civil,
e que juntos tentam adequar
os projetos às exigências
da lei".